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Macsuara Kadiwéu: ator indígena que foi a Cannes mantém venda de plantas em Uberlândia
Foto original adaptada visualmente por IA.
Uberlândia

Macsuara Kadiwéu: ator indígena que foi a Cannes mantém venda de plantas em Uberlândia

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Macsuara Kadiwéu, conhecido como o primeiro ator indígena do cinema brasileiro, mora em Uberlândia e divide a rotina entre a carreira artística e a venda de plantas medicinais. Aos 64 anos, ele mantém uma barraca atrás do Centro Municipal de Cultura, onde comercializa raízes e plantas organizadas conforme suas funções.

A estrutura é simples, coberta por uma lona e montada sobre uma longa mesa de madeira. Segundo Macsuara, a atividade ajuda no sustento da família. Ele afirma que não utiliza o dinheiro que recebe do cinema. O ator vive com a esposa e a filha, Yulnak, em Uberlândia.

Nascido em território indígena próximo a Aquidauana e Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, Macsuara cresceu em uma família de nove irmãos. Foi criado pela avó, que não falava português, e diz que os dois se comunicavam “no improviso”. Durante a infância, passou por várias cidades, cresceu em contexto urbano e começou a trabalhar cedo.

De acordo com o ator, naquele período ele era o único dos irmãos que visitava aldeias, em um contexto de preconceito contra os povos originários em seu estado natal. Essa realidade dificultou o processo de reconhecimento da própria identidade indígena, que mais tarde se tornou parte central de sua trajetória artística e de sua atuação em movimentos pelos direitos dos povos originários.

A venda de plantas acompanha Macsuara desde o início da vida adulta. Na juventude, ele buscou oportunidades em grandes centros urbanos e trabalhou como boia-fria em São Paulo. Na Praça da República, conheceu indígenas que vendiam artesanato e passou a conviver com integrantes do povo Guarani.

Um deles, Itairano, ensinou Macsuara a trabalhar com plantas e o convidou para conhecer uma aldeia em Ubatuba. Foi nessa viagem que o ator teve contato com o mar pela primeira vez. Ele contou que tentou tomar banho usando shampoo e sabonete, mas os produtos não fizeram espuma. Quando perguntou o que era aquele lugar, ouviu que “ninguém ia explicar nada, o tempo é que iria explicar”. A frase marcou sua trajetória.

Depois da experiência, Itairano levou Macsuara ao Rio de Janeiro. Os dois passaram a trabalhar no Largo da Carioca, onde vendiam produtos, davam palestras e conversavam com o público. A barraca de plantas também abriu caminho para a primeira oportunidade de Macsuara na televisão.

Durante uma participação em um programa ao vivo no Dia Internacional dos Povos Indígenas, a audiência aumentou quando ele entrou no ar. O apresentador então o convidou para participar de um programa de rádio. A participação se transformou no quadro “Disk Pajé”, no qual Macsuara falava sobre o cotidiano e as plantas, além de conversar com ouvintes.

O sucesso do quadro levou à criação de um espaço próximo à praça onde ele trabalhava, para que as pessoas pudessem encontrá-lo pessoalmente. Nessa fase, Macsuara afirma ter conhecido integrantes do Barão Vermelho e a cantora Gretchen.

Durante um dos programas, ele conheceu Zezé Motta, que o convidou para participar de seu primeiro filme, Quilombo, de Cacá Diegues, lançado em 1984. O ator contou que recebeu preparação para entender o funcionamento da câmera, da iluminação e da atuação diante das lentes.

Em 1985, Macsuara protagonizou Avaeté – Semente da Vingança, de Zelito Viana, tornando-se o primeiro indígena brasileiro a protagonizar um filme exibido nos cinemas, segundo a trajetória apresentada sobre o artista. Ele interpretou Avá, sobrevivente de um massacre contra indígenas Cinta-Larga, no Mato Grosso, em uma obra que aborda o colonialismo e a relação do país com os povos originários.

O desempenho de Macsuara recebeu elogios da crítica internacional, e o filme foi premiado em festivais de Moscou e do Rio de Janeiro. Para interpretar o personagem, ele contou com a preparação do ator Chico Díaz. Como ainda não sabia ler, passou a gravar o texto e a treinar a partir da repetição das falas.

“Ele me lia e eu repetia. Ele me ensinou que não é leitura, é auditivo”, relatou Macsuara. Segundo o ator, o trabalho também o ajudou a compreender o uso do fôlego, do olhar e do diafragma para transmitir emoções.

No mesmo ano, ele participou do filme hollywoodiano A Floresta de Esmeraldas, dirigido por John Boorman. Em 1989, atuou em Kuarup, de Ruy Guerra, produção filmada na região do Xingu e que contou com Fernanda Torres e Cláudia Raia no elenco. O filme concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes, na França, onde Macsuara esteve presente.

Ao longo das viagens e trabalhos, o ator conheceu nomes como Spike Lee, Robin Williams, Leonardo DiCaprio, Patrick Swayze e Whoopi Goldberg. Ele também se encontrou com Fernanda Torres e Ruy Guerra em sua passagem pelo festival francês.

Macsuara afirma que nunca ficou nervoso diante de grandes estrelas porque as considera trabalhadores como qualquer outra pessoa. Ele atribui parte de sua segurança às experiências da infância, à convivência com a avó e ao trabalho no campo.

Mais recentemente, o ator participou do projeto audiovisual do álbum EQUILIBRIVM II, da faixa “OKE”, da cantora Anitta. No videoclipe, ele representa o Pai da Mata e lê um trecho de um livro de Ailton Krenak, de quem é amigo pessoal. Macsuara contou que inicialmente não conhecia a cantora e chegou a perguntar ao filho quem era Anitta.

Ele também participou do filme Makunaima XXI, ainda não lançado, estrelado por Bruno Gagliasso e inspirado no clássico de Mário de Andrade a partir de uma perspectiva dos povos originários contemporâneos. Além disso, está envolvido em projetos internacionais que ainda não podem ser divulgados por razões contratuais.

Mesmo com a carreira no cinema, os projetos e as viagens, Macsuara continua trabalhando na venda de plantas medicinais ao lado do Centro Municipal de Cultura de Uberlândia. A trajetória como ator se soma à atuação como liderança indígena em movimentos nacionais pelos direitos dos povos originários, tema que inclui sua relação com nomes como Chico Mendes e Ailton Krenak.

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